Não espere ficar pesado demais para buscar ajuda
Setembro chega trazendo uma cor que nos convida a falar sobre um assunto que, por muito tempo, foi cercado de silêncio: a saúde mental.
O “Setembro Amarelo” tem como foco a prevenção do suicídio, mas falar sobre prevenção é também falar sobre tudo aquilo que pode nos ajudar a cuidar da vida antes que o sofrimento chegue ao limite.
Porque nem sempre quem está sofrendo deixa de trabalhar, de estudar, de cuidar dos filhos, de encontrar os amigos ou de cumprir suas responsabilidades. Às vezes, por fora, parece estar tudo bem. Por dentro, porém, pode existir cansaço, solidão, ansiedade, desesperança ou a sensação de não conseguir mais dar conta.
E perceber isso em nós mesmos — ou em alguém próximo — pode ser o primeiro passo para buscar ajuda.
Saúde mental também merece atenção
Cuidar da saúde mental não significa esperar aparecer um diagnóstico ou uma crise.
Assim como prestamos atenção à alimentação, ao sono, aos exames e à saúde do corpo, também precisamos observar como estamos emocionalmente.
Como tenho me sentido ultimamente?
Tenho conseguido descansar?
Ainda encontro prazer nas coisas que costumava gostar?
Tenho vontade de estar perto das pessoas?
Tenho conseguido lidar com as responsabilidades do dia a dia?
Estou constantemente cansado, irritado ou sem esperança?
Não existe uma resposta simples para essas perguntas. Mas elas podem abrir espaço para uma percepção importante: como eu realmente estou?
E essa pergunta pode ser muito mais importante do que parece.
Nem todo sofrimento é visível
Na vida adulta, especialmente entre trabalho, família, relacionamentos, responsabilidades financeiras e tantas outras demandas, é comum aprendermos a seguir em frente mesmo quando não estamos bem.
Continuamos produzindo.
Continuamos cuidando dos outros.
Continuamos dizendo que está tudo bem.
Mas estar funcionando não significa necessariamente estar bem.
Por isso, mudanças persistentes no comportamento merecem atenção. O Ministério da Saúde cita, entre os sinais que podem indicar sofrimento e necessidade de ajuda:
- isolamento,
- perda de interesse por atividades antes prazerosas,
- alterações importantes no sono e no apetite,
- mudanças marcantes de comportamento,
- uso abusivo de álcool ou outras substâncias,
- manifestações relacionadas à morte ou ao desejo de desaparecer.
Esses sinais não devem ser interpretados isoladamente, mas podem ser importantes quando aparecem juntos ou representam uma mudança significativa na vida da pessoa.
Perceber esses sinais não significa diagnosticar alguém. Significa prestar atenção.
Falar sobre suicídio é falar sobre prevenção
O suicídio é um importante problema de saúde pública.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 15,5 mil suicídios em 2021, o equivalente a aproximadamente uma morte a cada 34 minutos. O mesmo boletim mostra que o problema atinge diferentes faixas etárias e contextos sociais.
Esses números são difíceis de ler. Mas eles também mostram porque precisamos falar sobre o assunto.
Falar não significa incentivar. Falar de maneira responsável pode ajudar a diminuir o silêncio, o estigma e o isolamento que muitas vezes acompanham o sofrimento psíquico.
E existe uma mensagem que precisa ser repetida:
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de coragem e cuidado.
Você não precisa dar conta de tudo sozinho
Existe uma ideia muito presente na vida adulta de que precisamos ser fortes o tempo todo. Dar conta do trabalho. Cuidar da família. Resolver problemas. Manter a casa. Cuidar do corpo. Estar disponível.
Mas ninguém precisa atravessar todos os momentos difíceis sozinho.
Buscar um psicólogo, psiquiatra, médico ou outro profissional de saúde quando necessário não significa fracassar. Significa reconhecer que algumas situações precisam de cuidado especializado.
E oferecer ajuda também pode ser simples.
Às vezes, começa com uma pergunta:
“Como você está de verdade?”
Mais importante ainda: estar disposto a ouvir a resposta.
Sem julgamentos. Sem minimizar o sofrimento. Sem responder imediatamente com “isso vai passar” ou “você precisa ser forte”.
Escutar também é uma forma de cuidado.
E o movimento, onde entra nessa história?
Cuidar da saúde mental envolve diferentes dimensões. Não existe uma única atitude capaz de resolver todos os problemas, e a atividade física não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando ele é necessário.
Mas movimentar o corpo pode fazer parte de uma rotina de cuidado.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que a atividade física regular pode contribuir para a saúde mental, ajudando a reduzir sintomas de ansiedade e depressão, além de favorecer o bem-estar, o sono e a saúde cognitiva. Para adultos, a recomendação é de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, ou o equivalente em atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.
Mas talvez exista algo ainda mais simples nessa relação entre movimento e saúde mental:
quando movimentamos o corpo, também podemos criar um espaço para nós mesmos.
Uma caminhada. Uma aula de Pilates. Um treino de força. Uma pedalada. Dançar. Nadar. Alongar. Subir escadas.
Qualquer movimento que faça sentido para aquela pessoa e possa ser incorporado à rotina.
A própria OMS reforça que alguma atividade física é melhor do que nenhuma.
Pilates: uma pausa para voltar a perceber o próprio corpo
Em uma rotina marcada por telas, notificações, reuniões, trânsito, prazos e preocupações, passamos boa parte do dia vivendo na cabeça.
O Pilates propõe uma experiência diferente.
Respirar. Concentrar. Perceber. Controlar o movimento. Sentir o corpo. Estar presente.
Essa conexão entre corpo e atenção pode transformar alguns minutos de prática em uma pausa dentro de uma rotina acelerada.
Não porque o Pilates seja uma solução para questões emocionais complexas, mas porque cuidar do corpo também pode fazer parte de cuidar de si.
E talvez esse seja um dos grandes desafios da vida adulta: aprender que saúde não é apenas não estar doente. É também construir, aos poucos, condições para viver com mais equilíbrio, presença e qualidade de vida.
Autocuidado não precisa ser mais uma cobrança
Existe ainda uma armadilha quando falamos sobre saúde e bem-estar: transformar o autocuidado em uma nova lista de obrigações.
É preciso treinar. Dormir oito horas. Comer perfeitamente. Meditar. Trabalhar. Produzir. Descansar. Beber água. Ter hobbies. Manter relações saudáveis… Ufa!
E, de repente, até cuidar de si passa a ser motivo de cobrança.
Talvez o autocuidado possa ser mais gentil.
Começar pequeno. Escolher uma atividade que faça sentido. Dormir um pouco melhor. Sair para caminhar. Retomar uma conversa. Marcar aquela consulta que vem sendo adiada. Dizer não quando necessário.
Pedir ajuda quando algo estiver pesado demais.
Cuidar de si não é fazer tudo. É perceber do que você precisa.
Se você ou alguém próximo estiver precisando de ajuda
O Ministério da Saúde orienta que pessoas em sofrimento podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), CAPS, UPA, pronto-socorro ou hospital, conforme a situação. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional e escuta. Em uma situação de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192.
Se precisar, busque ajuda. Você não precisa atravessar tudo sozinho.

Setembro nos convida a olhar com mais atenção para a saúde mental. Uma pessoa funcional nem sempre é uma pessoa que está bem. Por isso, é importante olhar para nós mesmos, perceber nossos sinais e também estar atentos a quem está ao nosso redor.